A força das tradições, o respeito aos antepassados e a união da comunidade marcaram mais uma celebração do Dia dos Povos Originários na Aldeia Passarinho, em Miranda. A reportagem acompanhou quatro dias de festejos realizados na comunidade, em trabalho especial produzido pela estudante de jornalismo Elaíde Almeida, registrando momentos de cultura, reflexão e valorização de um povo fundamental para a história e para o presente do município.
Todos os anos, a data é celebrada com orgulho pela comunidade, reafirmando a importância dos Povos Originários na formação social, cultural e econômica de Miranda. O município possui forte ligação com os povos indígenas, especialmente com a nação Terena, cuja presença ajuda a construir a identidade local.
Mais do que uma comemoração, o evento representa resistência, memória e continuidade. Em tempos de mudanças rápidas, a aldeia mostra que preservar a cultura é também garantir futuro para as próximas gerações.
Lideranças que orientam e fortalecem a comunidade
Uma das vozes respeitadas da comunidade é a do cacique Dirceu Marcos Justino, que destacou a necessidade de unir conhecimento moderno e respeito às raízes culturais.
“Eu sempre oriento os mais novos a estudarem, porque hoje em dia é necessário, mas também falo para eles não perderem a nossa essência, os princípios.”
Com cerca de 500 famílias e aproximadamente 2 mil habitantes, a Aldeia Passarinho demonstra crescimento e avanços sociais importantes. Hoje, moradores atuam em diversas profissões, inclusive na área da saúde, com a presença de uma cirurgiã-dentista na própria comunidade.
Para o cacique, esse avanço mostra a capacidade e a força do povo indígena.
“Fico muito feliz, porque hoje o indígena está inserido em todos os setores da sociedade.”
As lideranças locais exercem papel essencial nesse processo, buscando melhorias, defendendo direitos e incentivando educação, geração de renda e valorização cultural.
Escola mantém viva a língua e a história
Outro ponto central da preservação cultural está na Escola Municipal Indígena Pólo Pílad Rebuá. No local, os professores Edenir Pires e Josias Moreira, falantes da língua terena, ministram aulas duas vezes por semana, ajudando a manter vivo um dos maiores patrimônios culturais da comunidade.
Além disso, a escola trabalha a disciplina de História e Cultura, fortalecendo os saberes tradicionais.
A diretora Tânia Pascoal Metelo Jacobina explicou que o ensino vai além das matérias convencionais.
Segundo ela, além de Português e Matemática, os educadores também abordam diversidade cultural, identidade indígena e valorização das raízes.
Artesanato e grafismo geram renda e preservam memória
A tradição também aparece no talento das mãos indígenas. A artesã Severina produz pulseiras, brincos e colares feitos com sementes de pau-brasil cultivado em seu quintal há mais de 20 anos.
“Hoje eu colho os frutos através do artesanato, que faço para vender. É daqui que tiro o meu dinheiro.”
Já o grafismo indígena segue forte entre os jovens. A moradora Melyssa, de 19 anos, aprendeu sozinha e há dois anos desenvolve pinturas e símbolos que representam sua etnia.
“Para mim o grafismo representa nossa etnia, nosso povo terena. Essa cultura não deve acabar.”
Quatro dias acompanhando a valorização cultural
Durante a programação acompanhada pela reportagem, a comunidade viveu momentos de emoção e orgulho coletivo.
No dia 17 de abril, a Noite Cultural teve como tema Celebrando a Cultura, reunindo apresentações tradicionais como:
- Dança do Bate-Pau
- Dança Siputrena, com o grupo Kali Terenoe Mariane
- Hino Nacional Brasileiro cantado na língua terena, por Januário Terena
A organização contou com participação da coordenadora pedagógica e professora Rosalina Medina dos Santos.
A culinária tradicional também teve destaque, com pratos típicos como:
- Beiju
- Batata-doce
- Abóbora
- Mandioca frita
- Hî-hî (bolinho de mandioca cozido em folha de bananeira)
Já no dia 19 de abril, data oficial dos Povos Originários, a aldeia promoveu almoço comunitário, reunindo moradores em clima de confraternização.
Miranda deve reconhecer sua própria origem
A história de Miranda não pode ser contada sem mencionar seus Povos Originários. A presença indígena ajudou a moldar costumes, tradições, modos de vida e a própria formação humana da cidade.
Valorizar essas comunidades não deve ocorrer apenas em datas comemorativas, mas durante todo o ano, por meio de respeito, políticas públicas, incentivo à educação e reconhecimento de suas lideranças.
A Aldeia Passarinho mostrou, mais uma vez, que tradição e modernidade podem caminhar juntas. E que um povo que preserva sua identidade mantém viva a alma de toda uma cidade.




























